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Em tempos de Spotify, as playlists se tornaram a forma mais utilizada e, dependendo do ponto de vista, a mais efetiva para se conhecer novas fontes musicais. O hábito de pesquisar tendências sonoras em sites especializados, comum entre musicófilos como eu, está sendo substituído pela experiência de ouvir e seguir artistas que chegam até nós via algoritmos nas playlists de plataformas de streaming como o Spotify.

Esta playlist dedica-se a um tema muito caro ao Canal ama: a trilha sonora do tempo junto (e feliz) em família. Como músico e pai de duas meninas, também me interesso profundamente por esse tópico. Como conciliar os gostos de adulto e as necessidades infantis sem ferir o prazer de ouvir música? Alguns dizem que uma boa seleção de música de adulto pode suprir as necessidades das crias. Mas o que constitui uma boa seleção de música de adultos para crianças? Melodias fáceis? Letras engraçadinhas, como “All together now”, dos Beatles? A verdade é que ouvidos infantis são extremamente abertos a novidades sonoras, contanto que encontrem as portinhas para um mundo fantástico capaz de fazê-las viajar.

Na minha experiência, como músico, pesquisador e pai que adora experimentar os ouvidinhos das filhas, tenho percebido que existem algumas especificidades que atraem a atenção das crianças.

  • O caráter cênico das canções é importante. Criar coreografias ajuda a corporalizar a experiência da escuta. Isso é fundamental na primeira infância, momento em que as crianças conhecem e reagem ao mundo mais através do corpo que do intelecto.
  • A repetição é fundamental. Para que se sintam parte da experiência da escuta compartilhada com os adultos, é essencial aprenderem a cantar pequenos trechos ou anteverem acontecimentos sonoros de uma canção. Além de fazê-las explodir em emoção ouvindo música, isso as habilita, desde cedo, a interpretar e significar a linguagem musical. Por isso, minhas playlists serão, sempre, curtas. Coloque-as em loop e aprendam juntos a cantar cada canção. (Eu costumo ouvir uma única playlist por meses com minha filha mais velha, a Luna, de três anos e meio).
  • A escolha dos instrumentos e a construção da narrativa sonora, quando pensadas como parte do brincar, são mais efetivas em engajar os pequenos. Crianças dificilmente ouvem música por ouvir. A música as leva a um lugar, a um estado de fantasia, como uma história. Não é a complexidade ou a simplicidade que contam, mas a exploração do caráter lúdico de uma canção, criando correspondências entre sons e imagens, entre notas e ruídos, entre ritmos e gestos, e assim por diante. Por isso, um funk ou a galinha pintadinha acabam chamando mais a atenção das crianças do que Mozart ou bossa nova. Nossos piolhinhos têm ouvidos livres de preconceitos. Precisamos mais aprender com eles do que tentar doutriná-los ao nosso próprio gosto.

Por essas razões, acreditamos que música feita para crianças é sempre uma ótima opção para engajar a família num momento de brincadeira. Isso não significa que ela precise soar infantil ou carecer de cuidados com os timbres sonoros. Música de criança pode ser feita com instrumentos de adultos.

Toda boa música infantil deve ser capaz de nos divertir também, de nos despertar algum tipo de prazer. Se não estético, lúdico.

Também podemos usar “música de adulto”, transformando nossos modos de escuta e explorando algumas das correspondências acima citadas. O importante é encontrar links lúdicos para brincar e marcadores para facilitar a intimidade com a estrutura da canção.

Música feita para crianças já vem com esses links prontos. Além disso, oferece a nós adultos uma oportunidade para desenvolver nossa habilidade de “quebrar cascas”, de nos libertar das rígidas convenções sociais que nos são impostas e nos conectar com a nossa essência. Tem cena mais linda que a de uma família cantando junta, sem medo de desafinar, de parecer inadequada ou ridícula

Lembre-se

A melhor aula de música para crianças pequenas e bebês é uma escuta musical dedicada e divertida em família.

Esses momentos, normalmente, oferecem pacotes de memória afetiva de longa duração, ajudando a imprimir na gente e em nossos filhos traços únicos de conexão e afetividade.

Não há sinfonia que supere uma experiência dessas.

Marcelo Téo

Sobre Marcelo Téo

É pai da Luna e da Mel, músico, historiador e trabalha no campo da produção audiovisual, especialmente em áreas ligadas ao som.

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